A revista evangélica do Brasil
O Milad vive:
viva o Milad!
Um dos
ministérios mais criativos da Igreja brasileira completa 15 anos e continua em
atividade
Omar de Souza
Deixar o
conforto da casa ou um emprego estável para viajar pela imensidão do Brasil,
anunciando o Evangelho em tempo integral através da música, da dança, do teatro
e, é claro, da pregação da Palavra. E viver disto. Há quem ache coisa de doido.
Se for, alguém esqueceu de trancar a turma desta foto aí do lado no manicômio. E
graças a Deus por isto: a loucura deste grupo proporcionou o surgimento de um
dos ministérios mais ousados e criativos que Igreja brasileira conheceu, o
Ministério Louvor e Adoração. Ao completar 15 anos de atividade, o Milad pode,
com toda justiça, ser considerado um marco da arte evangélica brasileira, e os
remanescentes continuam produzindo boa música sem abandonar a disposição
missionária.
“O que começa bom
dificilmente desanda”, proclama o adágio. Para comprovar sua veracidade, basta
olhar para as origens musicais e ministeriais do Milad. Seu idealizador, o
pastor Nelson Pinto Jr., foi missionário, durante seis anos, de uma das equipes
de Vencedores por Cristo (VPC), organização da qual brotaram alguns dos maiores
talentos da música cristã, como Aristeu Pires Jr., Jorge Camargo e Sérgio
Pimenta. Em 1985, Nelsão, como até hoje é conhecido, apresentou a vários músicos
e cantores cristãos o projeto de formar um grupo que pudesse dedicar tempo
integral a uma programação evangelística que não se limitasse às férias
escolares ou feriados prolongados.
“O Senhor dirigiu os passos para a a implantação de um ministério formado por pessoas comprometidas com o Reino e profissionalmente preparadas para cumprir uma agenda cheia de convites”, afirma Nelsão, atualmente pastoreando, ao lado de Guilherme Kerr – outra cria de VPC –, uma igreja de brasileiros no sul da Flórida, nos Estados Unidos. “Quando surgiu, o Milad desafiava a uma visão maior do louvor do povo de Deus, utilizando diversas formas de comunicação artística da mensagem do Evangelho.”
Seleção -
A julgar pela formação inicial do grupo, em 1985, não seria exagero
dizer que se tratava de uma seleção de 70 da música cristã nacional. Nomes como
os do casal Wesley e Marlene Vasques, responsável por alguns dos mais belos
solos do repertório evangélico, do talentoso baixista Toninho Zemunner e de João
Alexandre, unanimidade como cantor e compositor, aceitaram o desafio e se
engajaram na empreitada de viver o mesmo princípio bíblico dos levitas: serviço
sacerdotal sustentado financeira e espiritualmente pelo povo de
Deus.
Em setembro daquele mesmo
ano, a primeira prova de fogo: no garimpo de Serra Pelada, no norte do país, o
Milad realizou a cruzada “Jesus: mais precioso que o ouro”, na qual foram
contabilizadas cerca de 5 mil decisões. “A imagem daquele palanque na pista do
aeroporto do garimpo, com milhares de homens sendo tocados pelas músicas e pelo
poder de Deus, nos impressionou muito”, relata Nelsão.
Outro que guarda até hoje
esta recordação é João Alexandre. “No dia seguinte, um garimpeiro contou-me que
conversara na noite anterior com Deus, mesmo sem crer. No meio de sua oração ao
mesmo tempo sincera e incrédula, sentiu que o Senhor olhava para ele, dentro do
barraco. Ele orou comigo, pediu perdão por seus pecados e entregou sua vida e
seu coração para Jesus, em lágrimas.”
Em 1986, depois de voltar a Serra Pelada, o Milad firmou-se como ministério itinerante, mantido por ofertas e pela venda dos discos do conjunto Água Viva. Não por acaso, o zelo pela proclamação do Evangelho encontrava par no cuidado com a música. Além de contemplar a riqueza das culturas brasileira e latina – com samba, marcha-rancho e até reggae –, o repertório incluía canções de ótimos letristas crentes contemporâneos, enriquecidas por arranjos de qualidade profissional. “O conceito era o da identificação do povo brasileiro com sua cultura numa linguagem instrumental que envolvia, além da formação básica, instrumentos andinos, como a zampoña e o bumbo legüero. Também usamos percussão, até então pouco utilizada no meio da música cristã em geral”, conta João.
Bateria proibida -
É claro que tanta inovação encontrava resistências. Wesley – que hoje
dirige o ministério no Brasil, ao lado de Marlene – lembra de uma ocasião em que
o grupo tinha apresentação marcada numa igreja episcopal do Nordeste, e o pastor
local fez censura prévia ao repertório da programação. “Aconteceu também de
chegarmos numa congregação e sermos proibidos de usar a bateria dentro do
templo. Propomos colocá-la do lado de fora com uma caixa de retorno, mas os
líderes da igreja abriram uma exceção e deixaram que o baterista
entrasse.”
Na média, porém, a reação
das igrejas onde o grupo apresentava-se era muito boa, o que empolgou o Milad a
ampliar suas atividades. Em 1987, formou-se o segundo grupo Água Viva, formado
por músicos e cantores do Nordeste e de São Paulo, entre os quais o vocalista
Walvir e o tecladista Ney. Assim, era possível criar duas agendas paralelas para
que o ministério atuasse em lugares diferentes em datas coincidentes. Para os
integrantes, era comum passar mais tempo dentro do ônibus do que nas próprias
casas.
Num grupo caracterizado pela sensibilidade artística, era previsível que a expressão corporal e o teatro fossem incorporados ao leque de alternativas de evangelização. Logo surgiram o Dança Terra, equipe especializada em coreografias que acompanhava o Água Viva, e o Criação, uma espécie de companhia teatral ligada ao ministério. O Milad também foi responsável pela organização de uma série de retiros chamada “Criatividade no Reino de Deus”, que disseminou em várias cidades do país o conceito de arte como forma de comunicação do Evangelho.
"Surpresas"
- Talento sempre foi importante, mas não o único requisito necessário para
um missionário do Ministério de Louvor e Adoração. Das dezenas de pessoas que
integraram as equipes do Milad, quase todas tiveram que colocar freqüentemente
em prática pelo menos duas outras virtudes: a renúncia e a paciência.
Dificuldades como deficiência de infra-estrutura nas cidades visitadas, a
distância de casa e o convívio de tantos temperamentos diferentes emprestavam ao
grupo ares típicos de uma família itinerante. Aventura, saudade, tensão, saia
justa, perdão, amizade – cada viagem tinha um pouco de tudo.
Nelsão conta que,
enquanto foi novidade, a rotina de viagens constantes era encarada com muita
disposição. “Depois de muita estrada e canseira, o grupo sentia o desgaste.” Nas
cidades visitadas, não foram poucas as surpresas reservadas para os músicos,
geralmente encaradas com bom humor. “Nos acostumamos, com o passar do tempo, a
enfrentar qualquer tipo de circunstância”, diz João Alexandre. “Alguns irmãos de
casas em que ficamos hospedados colocavam o lençol no chão para dormirmos,
justificando que, como missionários, estávamos acostumados. Isto com quatro ou
cinco camas vazias em casa.”
Passar semanas longe do lar,
compartilhando tempo e espaço com pessoas tão diferentes – mesmo irmãos na fé –,
era uma tarefa difícil. Divergências também faziam parte do dia-a-dia do
ministério do Milad. Afinal, se Pedro e Paulo também tiveram suas discussões,
não chega a ser surpreendente que um grupo tão grande de missionários também
tenha suas rusgas. “O convívio era um desafio constante”, conta Nelsão.
“Chegávamos a passar 30, 40 dias em viagem. Eram muitas pessoas, com gostos e
temperamentos diferentes. Dá para imaginar quanta coisa tinha que ser acertada
para nos sentirmos bem uns com os outros.”
João reconhece que nem
sempre as diferenças eram resolvidas com a rapidez que se esperava. “Havia
momentos de convivência pacífica e tremendas discussões. De vez em quando, eram
mais críticas que elogios. Outras vezes, perdão sincero. Acontecia de alguém
ficar de cara fechada e só pedir perdão ao outro depois de vajar vários dias, o
que influenciava as apresentações. Já pensou: ter que cantar sobre a verdade da
alegria de sermos irmãos num clima desses? Mas eram coisas de seres humanos
normais, com certeza.”
O que mais impressiona Wesley é o fato de nenhum ressentimento ter sobrevivido. Apesar da grande rotatividade – aproximadamente uma centena de pessoas já passaram pelas equipes do Milad –, todos são amigos até hoje. “Uma discussão podia surgir, por exemplo, na hora do ensaio. Fazíamos reuniões de oração regulares, e muitas divergências eram resolvidas no mesmo dia. Graças a Deus, nunca houve uma briga sem reconciliação”, relata.
Enxugamento -
A diversidade de temperamentos foi provavelmente o menor dos problemas
enfrentados pelo Milad. Bem mais complicado é manter um ministério tão grande e
diversificado num país com uma realidade econômica e social como a nossa. Mesmo
tendo participado de vários eventos no Brasil e no exterior, muitos de grande
porte, como o Geração 90 e uma turnê aos Estados Unidos, o grupo tinha que
caminhar na linha estreita traçada pelo orçamento, definido pelo volume de
ofertas e das vendas de discos.
O segundo conjunto
Água Viva, assim como o Criação e o Dança Terra, não resistiram por muito tempo.
“O mais complicado era arranjar transporte e estadia para todas as pessoas”,
explica Wesley. Patrocínio, a palavra mágica que faz brilhar os olhos dos
idealistas, mas provoca calafrios nos empresários, era muito difícil de ser
captado. A solução foi enxugar. Exatamente por isto, a agenda ficou bem mais
restrita, o que chegou a dar a impressão de que o Milad havia sido extinto, o
que jamais aconteceu. “Acho que a maioria das denominações busca ser abençoada
com o talento e o trabalho dos músicos que se convertem, mas sem se mobilizar no
sentido inverso, sustentando suas vidas e famílias”, opina João
Alexandre.
Além disso, muitos que
passaram pelo grupo tomaram rumos completamente diferentes com o passar dos
anos. Em 1990, o pastor Nelson Pinto Jr. mudou-se
com a família para os
Estados Unidos – mesmo ano em que a sede do Milad transferiu-se para Goiânia,
onde permanece até hoje. O próprio João sentiu que seu chamado era outro.
“Embora fosse missionário, senti que meu chamado era para ser um músico
profissional, com todas as implicações e mudanças que esta decisão traria.
Também me incomodava muito ter que viajar deixando para trás a família. Não eram
poucas as vezes que os integrantes chegavam de viagem e encontravam a esposa
entristecida ou o filho com o olhar distante”, diz João, que deixou o grupo seis
meses depois de casar, quando Tirza, sua mulher, ficou grávida.
Experiência -
Atualmente, o Ministério de Louvor e Adoração concentra suas atividades
na edificação de igrejas nas áreas de evangelismo e adoração. Eventualmente,
grupos de teatro e dança das igrejas visitadas também participam dos eventos
organizados pelo ministério, hoje bem mais experiente no controle do orçamento.
As ofertas e as vendas de CDs, distribuídos por Vencedores por Cristo, ainda são
fundamentais na manutenção, mas a montagem de um estúdio também ajuda na
receita.
Se mudou na estrutura,
o Milad continua tão bom quanto antes na produção musical (veja quadro). O mais
recente CD, Recomeçar, lançado no ano passado, traz o mesmo esmero artístico das
séries evangelísticas e de adoração do grupo Água Viva. Wesley e Marlene, que já
haviam gravado o ótimo Planeta de ouro, disco independente produzido apenas em
vinil antes da formação do Água Viva e atualmente fora de catálogo, voltam a
alternar solos, desta vez com mais tecnologia e o acompanhamento de uma banda de
primeira.
A brasilidade de ritmos,
melodias e letras, herdada da geração de músicos e compositores cristãos
formados nas equipes de Vencedores por Cristo e grupos como o Semente, foi
mantida – a moda de viola Toque de fé o atesta. Só que agora o cenário musical
evangélico é outro. “O movimento gospel trouxe vários grupos estrangeiros que
nada têm a ver com nossa cultura. Isto atrapalhou o processo de nacionalização
da música cristã”, protesta Wesley.
Felizmente ainda há quem resista ao bate-estaca dos discos de adoração comunitária ao vivo e aprecie boa música, tanto no Brasil como no exterior. Por conta disto, o Milad mantém uma agenda bastante concorrida. Depois de passar o Carnaval apresentando-se em São Luís (MA), o grupo segue para Anápolis (GO) ainda este mês. Em agosto, os músicos partem para uma segunda turnê no Canadá. Alguém ainda tem dúvida de que o Milad continua vivo?
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Discografia A valorização das culturas brasileira e latina é a marca dos discos produzidos pelo Milad. À exceção do último, com solos de Wesley e Marlene Vasques, todos são gravados sob o nome do Água Viva, grupo musical do ministério. | |
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Água viva Da série evangelística, foi o primeiro do grupo. Destaques: Muitos que procuram, Enquanto eu calei e Pai nosso. |
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Milad 1 Primeiro da série de adoração. Destaques: Não tenhas sobre ti, Tu é s e Aleluia, salvação e glória. |
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Retratos de vida Evangelístico, usa os tipos urbanos como tema principal. Destaques: Olhos no espelho, Meninos de rua e Virada radical. |
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Milad 2 De adoração Destaques: Água viva, Cego de Jericó e Que estou fazendo? |
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Pra cima, Brasil Da série evangelística, com toques de engajamento político. Destaques: Brasil e Sonhos evaporam. |
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Milad 3 Último da série de adoração. Destaques: Deus não desiste e Esse nome. |
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Recomeçar Solos de Marlene e Wesley. Destaques: Rei Uzias, Toque de fé e Fall in Canada. |